segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Meus planos astrofotográficos para 2018

Chegamos ao fim de 2017. O ano que está para acabar foi um dos mais atípicos que já tive desde o começo da Astrofotografia. Certamente, o maior acontecimento deste ano foi a publicação do meu guia de astrofotografia, o Astrofotografia Prática. Após três anos de trabalho, muitos desafios, entre eles um gigantesco processo de revisão, finalmente o tão prometido livro foi publicado, com excelente recepção por parte dos astrofotógrafos. As duas versões, a impressa e a digital, tornaram-se os dois livros de fotografia mais vendidos do site Clube de Autores e a versão impressa está disponibilizada na Livraria Cultura, sem contar os grandes elogios que o livro recebeu.

Aguardando o Eclipse total do Sol em 21 de agosto, nos Estados Unidos.

Só um acontecimento do tamanho da publicação do Astrofotografia Prática para que o primeiro Eclipse Solar Total que presenciei, com uma viagem para os Estados Unidos, não se tornasse o maior acontecimento do ano. Ver um eclipse solar total é algo que todos em algum momento de sua vida devem tentar fazer.  É certamente um dos maiores e mais belos acontecimento que os céus podem nos proporcionar.

O Eclipse foi um evento inesquecível, mas foi eclipsado (ha ha!) pela publicação do livro.


Na astrofotografia em si, o ano foi um pouco pobre, marcado principalmente por fotos planetárias, principalmente belos registros de Júpiter. Por não ter férias disponíveis para o período, o Encontro Brasileiro de Astrofotografia foi o que minha participação foi mais curta até hoje. Nem a presença da nova câmera QHY163m foi capaz de evitar que fosse um dos meus EBAs menos produtivos. A falta de uma montagem portátil, com a venda do excelente Ioptron SkyTracker também foi um fator a se considerar. AQHY163m funcionou muito bem no EBA, mas o sensor maior não dialogou com a imensa poluição luminosa do apartamento em que moro.

A outra câmera QHY que comprei, a QHYIII-224c foi ainda menos aproveitada do que a QHY163m. Até agora, essa câmera planetária colorida foi muito mais utilizada como câmera de guiagem do que em fotografias. Eu sempre me perguntei se a QHY290mono não teria sido uma compra melhor (e teria), mas eu estava afim de ter um pouco de experiência com câmeras planetárias coloridas. Júpiter está chegando no começo do ano e só os resultados com este planeta mostrarão se esta compra realmente valeu a pena, nem que tenha sido pela curiosidade.

Mas 2018 está chegando. Uma nova estiagem virá, Júpiter e Saturno estarão disponível para fotografia, uma espetacular oposição de Marte ocorrerá em Julho, época sem nuvens, e os projetos para céu profundo são muitos.

O ano de 2018 deve começar com a publicação de um novo livro. Isso mesmo! Mas não será um guia de Astrofotografia. Será o meu primeiro livro de fotos. Algo que muita gente me pedia, principalmente meus amigos e seguidores que são mais interessados em Astronomia do que propriamente em Astrofotografia, e mesmo quem não é da área da Astronomia, mas que gostaria de ter um livro com essas fotos me perguntava por este livro. Eles me diziam: :"Eu não quero um livro sobre como fazer fotos, eu quero um livro com as suas fotos". Por isso, logo após o Astrofotografia Prática, eu iniciei a confecção do Viajante Espacial. A ideia era publicar o livro antes do Natal, mas decidi adiar a publicação por dois motivos: um melhor processo de revisão e também não correr o risco de ver pessoas comprando o livro como presente de Natal e não receberem o exemplar a tempo, o que deixaria muitas pessoas tristes. Decidi deixar a publicação para janeiro. Assim, não haverá preocupação de que o livro seja entregue numa data específica.

Com a publicação do Viajante Espacial, eu poderei ter um ano astrofotográfico muito mais intenso do que o anterior. Uma de minhas maiores apostas é que voltarei a ter uma montagem ultraportátil para Astrofotografia com lentes, principalmente a de 200mm. O já vendido Ioptron Skytracker será substituído pelo SkyGuider, também da Ioptron. Esse tracker tem duas vantagens relevantes em relação ao Skytracker. Possui pacote com contrapeso e também entrada para autoguiagem. Eu estava entre este Skyguider e a minimontagem SmartEQ, também da Ioptron.

A SmartEQ tem uma grande vantagem em relação ao Skyguider. Possui motorização no eixo de declinação, o que permite que a montagem também tenha GoTo e possa ser controlada por computador. Mas tem uma desvantagem considerável. É maior e mais pesada do que o Skyguider, sendo menos portátil. É uma montagem um pouco mais complicada para ser transportada numa mochila ou numa viagem de avião. Além disso, vi alguns comentários negativos em relação ao acabamento da SmartEQ, que muitas vezes necessita que o astrofotógrafo faça modificação no equipamento para funcionar perfeitamente.

Para quem não tem um observatório, ter uma montagem ultra portátil é sempre algo a se considerar. Já deixei de participar em muitos eventos de Astrofotografia simplesmente porque não estava disposto ao trabalho de arrumação e transporte de um telescópio e uma montagem EQ5 depois de uma semana puxada no trabalho. Com uma montagem menor, é sempre mais fácil eu largar a preguiça e me animar para uma viagem de uma ou duas noites para Astrofotografia, principalmente para lugares mais distantes.

O Ioptron Skyguider é basicamente o Skywatcher Adventurer da Ioptron.

Mas o ano de 2018 não será feito só de Skyguider e fotografia com lentes. Também adquiri recentemente um corretor de coma da Baader, para o refletor de 200mm, que apresentava coma mesmo quando utilizado com a Atik314L+ e seu pequeno sensor de 2/3 polegadas. Com este corretor, poderei usar o refletor até com a QHY163m. A atik314L+, diga-se de passagem, não será vendida. Esta câmera é bem menos sensível à poluição luminosa de Brasília do que a QHY163m e capaz de produzir uma imagem de objetos menores superior. Por isso, não vejo razão para me desfazer da Atik314L+

Mas 2018 não trará somente equipamentos novos. Também trará diferenças na minha forma de tratar a Astrofotografia. Nos últimos meses, eu tenho consumido muito mais material sobre Astronomia do que vinha consumindo nos anos anteriores. Por isso, o futuro deste blog é ser mais astronômico e não somente tão astrofotográfico, usando minha fotos mais como base dos posts, mas sempre falando de qualquer aspecto astrofotógráfico que seja relevante.

É isso aí pessoal. Já estou há seis anos dedicado à astrofotografia e posso dizer que me sinto tão empolgado como no início. Nesses anos eu vi colegas começando e saindo da astrofotografia. Muitos enfrentaram obstáculos em suas vidas, outros iniciaram novos projetos, principalmente os mais novos. Mas o tema é enorme. Há ainda milhares de objetos esperando serem visitados por mim, galáxias, nebulosas, algumas que já devia ter visitado faz tempo, e espero que 2018 seja um ano bastante intenso na astrofotografia e, principalmente, neste blog.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Blue Head Horse - Reprocessamento de uma captura problemática.



A Cabeça do Cavalo azul é uma nebulosa de reflexão das mais difíceis de se registrar. Bastante pálida e inacessível a filtros de banda estreita. Como acontece com as galáxias mais pálidas, é necessário deslocar-se para regiões escuras, como fazendas isoladas, para um bom registro. A Nebulosa está localizada próxima à cabeça do Escorpião, sendo visível principalmente durante o inverno. Apesar disso, não é um alvo muito comum entre os astrofotógrafos durante os encontros de Astrofotografia, por dois motivos, primeiro, mal aparece nos single frames, como você pode ver na imagem final do post, o que pode desanimar um pouco os astrofotógrafos. Mas acredito que a principal razão é pela nebulosa ter uma tamanho aparente muito grande, sendo um objeto ideal para fotografia com lentes. A imagem do post foi feita com uma lente de 135mm. Como a maioria dos Astrofotógrafos utiliza telescópios nestes encontros, são poucos os que tem equipamento adequado para o registro, como o Carlos Fairbairn, que já fez ótimos registros da nebulosa.

Eu tinha uma boa captura da Cabeça do Cavalo Azul. 36 frames de 3 minutos feitos com a lente de 135mm e Canon T2i no longínquo ano de 2014. Bem, boa captura entre aspas. Apesar do bom tempo de exposição total, com quase duas horas; dos frames estarem numa boa duração, em ISO 800 e das estrelas estarem redondas, os frames apresentaram problemas bastante difíceis de lidar: escurecimento na parte inferior e uma mancha rosada na parte esquerda inferior. Esse problema esteve em praticamente todas as capturas com DSLR daquele EBA, me fazendo pensar que, a minha Canon T2i havia chegado ao fim precocemente. Mas, após aquele evento, analisei que talvez o intervalo entre os frames, de cerca de 15 segundos para lightframes de 3 minutos, talvez tivesse sido muito curto. Logo, desde aquela época, tenho ajustado intervalos bem mais longos entre os frames de captura. Na opinião de alguns colegas astrofotógrafos, talvez até um pouco demais. Hoje, para frames de 3 minutos, numa câmera sem resfriamento, os intervalos que eu daria para o sensor esfriar seriam provavelmente de um minuto.

Não sei se os intervalos que tenho dado em minha captura estão exagerados. Sinceramente, não sei se havia alguma outra coisa afetando a captura naquela época, mas, desde que aumentei o tempo dos intervalos entre os frames, problemas assim nunca mais apareceram.

Abaixo, vemos um single frame da captura que gerou a imagem da Cabeça do Cavalo Azul. Nela percebemos alguns detalhes suaves da Nebulosa, que depois seriam realçados, com o filtro mínimo, para diminuição das estrelas; aumento da saturação; e "Ajuste Automático de Cores", no Adobe Photoshop. O processamento final bem que poderia ser um pouco mais cuidadoso, evitando-se estourar as estrelas da nebulosa vizinha, Rho Ophiuchi. O problema, devo admitir, é a falta de tempo, mas com o fim da produção de meu livro de fotos "O Viajante Espacial", que deve ser publicado mês que vem, eu devo ficar mais tranquilo, até por que o ano de 2018 está cheio de projetos, que eu devo falar no próximo Post.




sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Os Girinos Cósmicos



Essa época do ano costuma ser uma das piores para fotografar, por isso, quando tempos uma noite aberta, ainda mais sem Lua, costuma ser uma oportunidade de ouro para capturarmos nebulosas que há muito tempo queremos registrar e as nuvens sempre atrapalham. Mas também pode ser uma época interessante para descobrirmos novos objetos no céu, ou mesmo, como no caso da imagem deste post, descobrir que é possível registrar nebulosas que imaginávamos estarem além do nosso alcance.

Na noite do feriado de 12 de outubro, eu percebi que poderia apontar meu telescópio, mesmo da varanda do meu apartamento, para algumas nebulosas interessantes no norte. O alvo que me parecia mais interessante era a nebulosa Flaming Star, catalogada como IC405.
Eu já tinha apontando o telescópio para Flaming Star quando notei que bem ao lado daquela nebulosa estava um dos objetos que eu acho mais interessantes no céu e que eu acreditava não ser possível fotografar do Brasil, muito menos de meu apartamento. 

Trata-se da Nebulosa do Girinos, catalogada como IC410. Acho que o nome não é muito popular no Brasil. Parece meio sem glamour, eu acredito, mas em inglês ela é conhecida como Tadpole Nebula, cuja tradução é girino. Acho que outra opção que teríamos é chama-lás de Nebulosa dos Espermatozóides. O problema é que daí não demorariam a encurtar o nome da nebulosa, que logo viraria Nebulosa do Esperma. Talvez seja melhor deixar como dos Girinos mesmo.

Apesar do céu estar bem aberto nos dias do registro, as condições estavam longe de serem as ideais. Devido à seca pela qual Brasília está passando, havia muita poeira e fumaça na atmosfera e isso acaba espalhando ainda mais a intensa poluição luminosa que enfrento da varanda de meu apartamento. Mais uma vez o sensor maior da QHY163m conversou com dificuldades com a poluição luminosa da varanda do meu apartamento e eu vejo que esta câmera é mais adequada para ser usada durante os encontros em fazendas, enquanto a Atik314L+  parece melhor para o apartamento.

De qualquer forma, capturar IC410 foi uma grande alegria. Mesmo com os defeitos da imagem, eu não lembro de outro astrofotógrafo brasileiro ter feito esta captura, o que é um grande orgulho.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Comparando a QHY163m com a Atik314L+ - Foi a nova câmera um Upgrade relevante?

Ômega Centauri com QHY163m - Tempo total de exposição: 36 minutos - 8 frames de 90 segundos em Bin 2x2 para cada cor.





Ômega Centauri com Atik314L+ - Tempo total de exposição: 2 horas e 40  minutos - 20 frames de 5 minutos de luminância e 4 frames de 5 minutos em Bin 1x1 para cada cor.

Já fazem alguns meses que estou com a minha nova câmera astronômica monocromática QHY163m, que, com seus 16 megapixels de resolução, veio "substituir" a Atik 314L+, com somente 1,3 megapixels, mas que tantas alegrias me deu nos últimos anos. Adquirida no início de maio e recebida no inicio de junho, não usei a QHY163m tanto quanto eu gostaria, mas já posso ter uma boa ideia do desempenho dela em relação à Atik 314L+.

Primeiro, devo dizer algo sobre a Atik 314L+. Se, em termos de resolução, seus 1,3 megapixels deixavam ela atrás das câmeras com sensores maiores, trabalhar com a QHY163m provou que eu estava completamente certo quanto aos motivos que me fizeram adquirir a Atik 314L+ a época. Sim, trabalhar com uma câmera com sensor pequeno como o 2/3 polegadas da Atik 314L+ traz alguns problemas. É mais difícil apontar e enquadrar o objeto, deve-se tomar cuidado principalmente quando se troca de filtros, ainda mais em capturas feitas em mais de uma sessão, para se perder o mínimo de campo possível. Qualquer movimento do telescópio, na hora da troca de filtro, pode incorrer em perda de uma proporção considerável de campo na Atik 314L+. Com a QHY163m é mais fácil achar os objetos e o seu grande sensor de 4/3 polegadas aceita melhor alguma perda de campo.

Mas com um sensor menor, a Atik 314L+ se adaptou imediatamente a todo o meu econômico setup astronômico, sejam os tubos ópticos ou acessórios de 1,25 polegadas. Não houve necessidade de adquirir filtros maiores (e bem mais caros) nem aplanadores ou corretores de coma. Telescópios imperfeitos como os que possuo costumam realçar suas deficiências nas bordas da imagem. No centro, as aberrações são quase imperceptíveis. Poder usar a Atik 314L+ por muitos anos sem ter gastos adicionais foi uma tremenda vantagem.

Mas não é só pelo equipamento que uma câmera com sensor maior traz dificuldades. A óptica do telescópio pode ser corrigida com acessórios e os filtros de 1,25 polegadas estão dando uma vinhetagem muito leve na QHY163m, facilmente corrigida por flatframes. Entretanto, uma câmera com sensor maior também sofre mais com poluição luminosa. A vinhetagem e o gradiente que recebo em meu apartamento, numa área densa em Brasília, era praticamente irrelevante com a Atik 314L+ quando com filtros de banda estreita. Com a QHY163m, eu estou tendo um pouco mais de dificuldades na hora de processar as imagens de capturas feitas em meu apartamento, mesmo capturadas com filtros de banda estreita.

Lidar com arquivos maiores também foi uma adaptação difícil pra mim. Como esperado, os arquivos de 16 megapixels da QHY163m levam mais tempo para carregar do que os de 1,3 megapixels da Atik314L+. Sim, a QHY tem entrada USB3.0, show de bola, mas os arquivos são quase 16 vezes maiores. E a porta USB3.0 do meu notebook não consegue compensar isso. Essa maior demora no carregamento dos arquivos não faz muita diferença quando já estamos registrando os lightframes, que podem durar vários minutos. Esperar dez segundos de download entre um lightframe e outro não é um grande sacrifício. Mas quando estamos fazendo os ajustes de foco, enquadramento, entre outras coisas, essa maior demora começa a desgastar a paciência. Até por que, nos softwares que utilizei, a QHY163m só faz Binning 2x2, fazendo uma imagem com ainda quatro megapixels de tamanho mesmo para uma prévia, enquanto a Atik 314L+ faz até Binning 8x8. Na hora dos ajustes de imagem eu sinto muitas saudades dos arquivos pequenos da Atik 314L+, que carregavam em um segundo.

Mas vale dizer, estes inconvenientes citados são todos devidos a uma característica superior da QHY163m. Agora os problemas verdadeiros: provavelmente por ser uma câmera com sensor CMOS, a QHY163 apresenta um tipo de defeito em imagens integradas que eu nunca vi na Atik314L+, mas já tinha percebido algumas vezes na Canon T2i e em imagens de outros astrofotógrafos que utilizaram câmeras com sensor CMOS. O resultado da integração apresenta linhas de ruídos inclinadas, como você pode perceber na imagem abaixo, crop de uma captura de NGC 6188 também feita no 10°EBA. Eu não sei o que causa isso. Não aparece em todas as imagens e é pouco perceptível. Ainda não fiz um estudo sobre este problema e se alguém quiser colaborar, sinta-se a vontade. Não é algo que destrói a imagem, mas exige um certo cuidado durante o processamento.

Repare nas linhas inclinadas para a esquerda neste crop de um lightframe da QHY163m

Mas o que tem incomodado mesmo na QHY163m é o tal do Amplifier Glow. Uma mania de sensores do tipo CMOS (a Atik usa um sensor CCD) de deixarem partes da imagem mais claras do que outras. Num primeiro momento, pode até ser confundido com vinhetagem ou gradiente na imagem, que geralmente é causada por luzes parasitas na óptica e deve ser tirado com Flat Frames. Mas é algo que está no sensor da câmera e não na óptica. Por isso, tem de ser tirado com Dark Frames. Sendo assim, pelo que tenho visto, enquanto é possível astrofotografar com uma câmera CCD como a Atik 314L+ sem dark frames, com uma CMOS, Dark Frames são obrigatórios.

Amplifier Glow (região mais clara a direita) em single frame da Nebulosa do Camarão.
O grande problema que estou tendo com o Amplifier Glow é que, com o ganho da QHY163m em zero, o Amplifier Glow sai facilmente com os dark frames, mas quando elevo o ganho para 30 (o ajuste vai até 60), o resultado da integração, mesmo com dark frames, é prejudicado. Tanto que os registros que fiz com esse nível de ganho não ficaram, digamos, publicáveis. Isso acaba tirando uma das vantagens que eu esperava desta câmera em relação à Atik 314L+, que era fazer frames curtos com ganho elevado, integrar muitos deles e conseguir imagens que só conseguiria com frames muito longos com a Atik 314L+.

Após tantos comentários negativos, pode até parecer que a conclusão foi que a QHY163m não foi um bom upgrade em relação a Atik 314L+. Mas não é o que acontece. Os problemas causados pelo sensor maior são todos decorrentes de estar usando um equipamento superior, que exige uma óptica melhor e um céu em melhores condições. É o preço que se paga por ter um equipamento de maior capacidade. Com seus 16 megapixels de resolução, a QHY163 produz imagens muito mais nítidas, com estrelas menores e maior campo do que a Atik 314L+. Quanto a seus defeitos reais. Eles são contornáveis. Darks e Flat frames podem tirar quase todos os defeitos dos lightframes. E recursos simples do Fitswork removem quase todos os problemas ópticos restantes. Sim, não estou conseguindo usar ganhos maiores, mas mesmo no menor ganho a câmera apresenta excelente sensibilidade. Além disso, ganho é algo meio relativo em astrofotografia de céu profundo, já que no fim teremos que ajustar os níveis da imagem integrada, geralmente bem escura.

Para mim, a maior prova do avanço da QHY163m em relação a Atik 314L+ está no fato de que estou finalmente produzindo meu primeiro livro de fotos e basicamente todas as imagens que eu fiz com a QHY163m substituíram registros feitos com a Atik 31L+, por apresentarem fotos mais bonitas e ficarem melhores no formato A4 que o livro vai ter. E olha que em muitos casos foram registros com a QHY163 que tinham uma fração do tempo de exposição da Atik 314L+, como o do Aglomerado Globular NGC 5139, no alto deste post. Isso mostra que o upgrade valeu muito a pena.

Mas a QHY163m não vai me fazer vender a Atik314L+. Se a foto da QHY163m fica mais nítida e bonita que a da Atik314L, quando olhamos os objetos mais de perto e analisamos os detalhes capturados pelas duas câmeras, a Atik314L+ me parece ser capaz de uma imagem mais definida. Para galáxias de menor campo, que caibam com sobras no sensor desta câmera, acho que a Atik 314L+ permanecerá imbatível.

Onde a QHY163 me parece surpreender mais é nas imagens em RGB. Imagens em cores naturais nunca foram o ponto forte da Atik 314L+ e eu já estou começando a ficar um pouco saturado de imagens em Hubble Palette. Então, no próximo EBA devo tentar explorar ao máximo a capacidade da QHY163m e focar em objetos diferentes das nebulosas de emissão, como galáxias, campos estelares, nebulosas escuras ou de reflexão. O resultados de amigos que estão utilizando esta câmera para fotos RGB têm mostrado isso.

Este é um post baseado em opiniões pessoais, de quem está constantemente aprendendo. Por isso, não se assuste se, no futuro, algumas opiniões mudarem. Pode acontecer de, por exemplo, que eu consiga resolver a questão de usar ganhos elevados com a QHY163m, o que seria muito interessante.


Nebulosa da Lagosta registrada no EBA de 2017, com a QHY163m em refrator de 102mm

Nebulosa da Lagosta, registrada com a Atik314L+, com o mesmo telescópio refrator.


sábado, 16 de setembro de 2017

A Árvore e a Galáxia

A Árvore é a Galáxia.
Frame único de 80 segundos em ISO 3200.
Câmera Canon T2i
Lente EF-S 10-22mm f/3.5-4.5 USM
 .


Eu não faço muito astrofotografia de frame único, de composições da Via Láctea com paisagens. Geralmente isso ocorre por falta de tempo (estou com a câmera numa montagem, preferindo Wide Field com muitos frames) ou por que acho que câmeras com sensor cropado, como a minha Canon T2i (550D) não são as mais adequadas para o serviço, sendo preferível, câmeras com sensor Full Frame, como a Canon 6D, um de meus sonhos de consumo.

Mas a imagem que você veem acima me deixou  mais animado quanto a capacidade de astrofotografia com paisagens de minha Canon T2i, ainda mais neste momento que não tenho uma montagem portátil para levar para eventos e viagens e fazer Wide Field, depois que vendi o Ioptron Skytracker. O desempenho, principalmente num ISO tão levado (3200), me surpreendeu para esta câmera num único frame.

A imagem na verdade foi feita para a composição de um star trail, mas eu cometi um erro, o intervalo entre os frames ficou mais alto do que deveria. Isso aconteceu por que a lente usada, com 10mm de distância focal, tem um campo muito grande e se as estrelas próximas ao Polo Sul andam muito pouco, as da linha do equador andam muito mais rápido. O resultado foi que as estrelas da parte de cima da imagem ficaram picotadas, ficando a imagem de frame único melhor do que o Star Trail.

sábado, 9 de setembro de 2017

Finalmente o eclipse total do Sol

Meu primeiro Eclipse total do Sol - Composição de duas capturas com a lente de 200mm, uma com 1/250 e outra com 1/1600 de exposição, as duas em ISO 100.

Um eclipse solar total é considerado por muitos o evento mais dramático que o céu pode nos proporcionar. Então, para um amante da Astronomia como eu, presenciar um eclipse total já era um sonho antigo, mas ver um evento destes não é fácil. Eles são raros, são visíveis em faixas estreitas e duram muito pouco tempo. Por isso, eu cheguei à beira dos quarenta anos sem ter presenciado o evento.

Na verdade, quem deseja assistir à um eclipse solar total deve aceitar que é preciso viajar. E foi o que fiz. Para acompanhar o eclipse total de 21 de agosto, comprei uma passagem Brasília-Los Angeles e, junto com um amigo, dirigimos até o estado do Wyoming, nos Estados Unidos, para acompanhar o eclipse na pequena cidade de Shoshoni, mais exatamente no Boysen State Park, um pequeno parque, cuja atração principal é uma represa, próximo à cidade.

O local estava bastante cheio. Na verdade, o trânsito para os locais do eclipse estava um loucura. Era legal ver o interesse das pessoas pelo evento celeste. Era um clima que me lembrou quando fui assistir jogos da Copa do Mundo. Mas a torcida aqui não era pela vitória de um time, mas para que as nuvens, que estavam bastante assustadoras nos dias anteriores, dessem um sossego na hora do evento. Felizmente o time da casa venceu de goleada, e o eclipse aconteceu com o céu absolutamente aberto. Não podia ter sido melhor.

Para registrar o eclipse, levei a minha querida lente de 200mm F2.8 da Canon, a câmera DSLR Canon T2i e um tripé, sem qualquer acompanhamento motorizado. Também levei um filtro da Baader improvisado no parasol da lente. Como seria meu primeira eclipse total do Sol e a totalidade não duraria muito mais do que uns dois minutos, eu estava bastante tenso. 

Algo interessante a se saber é que, num eclipse solar total: você deve utilizar filtro específico para o Sol durante o período em que a Lua está se colocando à frente da estrela, mas no momento em que ela cobre o disco solar por completo, o filtro deve ser retirado. Foi aí que cometi o meu maior erro. Eu sabia que o filtro tinha que ser retirado no momento do Eclipse, só não lembrei de que, com a retirada do filtro, o ponto focal da lente muda, tirando a nitidez do registro. Felizmente, eu percebi isso alguns segundos depois, mas perdi algumas fotos que teriam ficado interessantes. Depois fiz algumas fotos com tempos de exposição variáveis. Estourei "um pouco" a coroa, mas fiz bons registros das proeminências solares, aquelas que vemos com filtros H-alpha solares caríssimos, mas que durante o eclipse aparecem até para câmeras DSLRs sem filtros. Esta é a imagem do início do post.

Os dois minutos de totalidade me pareceram ter durado uns quinze segundos, tamanha a tensão que eu estava. Ainda assim, após conseguir algumas imagens com a lente de 200mm, coloquei a lente 10-22mm e tentei uma panorâmica do Eclipse. Esta é a imagem que você veem abaixo:

Eclipse registrado com lente 10-22mm em 13mm. Podemos ver um pouco do parque onde fiquei durante o evento.
Registro "levemente" estourado da Coroa Solar. Ainda assim, é interessante percebermos a presença da estrela Régulo, da Constelação do Leão, próxima ao Sol (às sete horas)

Aguardando a totalidade. Foto feita com Celular.


O equipamento utilizado, com o filtro no parasol da lente.


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Voltando do Décimo Encontro Brasileiro de Astrofotografia

IC2944, Nebulosa Running Chicken com Glóbulos de Bok ao centro. Imagem feita com telescópio refrator de 102mm F7, Câmera QHY163m e filtros de banda estreita.

Mais uma vez eu volto de um Encontro Brasileiro de Astrofotografia, o décimo realizado e o sétimo em que participo. Desde o Quarto EBA, eu não faltei a nenhum evento. Infelizmente, este último teve que se o mais curto em que compareci. Ao contrário dos três últimos, em que estive seis noites, neste só pude ficar por três. Não pude tirar as devidas férias porque no próximo mês vou usar os dias que ainda tenho direito este ano para uma viagem de duas semanas nos Estados Unidos, quando pretendo observar e registrar meu primeiro eclipse solar total.

Este último EBA teve outras complicações além da falta de tempo. O frio que vem fazendo no Centro Oeste e a previsão de noites nubladas quase me fez desistir do evento, mas no fim, acho que foi muito bom. Sim, houveram algumas nuvens, mas nada muito pior do que em outros EBA que participei. No fim, foi um evento divertido, muito bem organizado e, como sempre eu volto com algumas imagens interessantes.

Dessa vez, ao contrário do que fiz nos outros eventos, começo publicando a que foi provavelmente a minha melhor captura do Décimo EBA, da Nebulosa Running Chicken. Eu fiquei muito feliz de conseguir esta imagem, por que as condições foram bastante adversas. A Nebulosa fica pouco tempo visível nesta época do ano, pois quando o Sol se põe ela está a pouco mais de três horas de também se por. Como está muito ao sul, também fica bem baixa a noite toda, vulnerável a mais nuvens do que estaria se estivesse mais próxima do equador celeste. E as noites foram nubladas principalmente no início durante esse EBA. Apesar disso tudo, com o setup bem ajustado, na segunda noite do EBA, eu consegui registrar a nebulosa desde o primeiro momento de escuridão e a segui sem problemas até que ela estivesse baixa demais para boas imagens.

Meu objetivo não era exatamente a nebulosa Running Chicken, mas as intrigantes nuvens escuras no centro da Nebulosa, chamadas de Aglomerados de Bok. Estas nuvens são áreas de formação estelar que estão muito próximas de formarem as suas estrelas. As da Nebulosa Running Chicken são provavelmente as mais bonitas, seu contraste com a nuvem de emissão da nebulosa permite uma profundidade única aos registros dessa região celeste. Na imagem acima podemos ver os aglomerados de Bok de Running Chicken bem no centro do registro, como pequenas manchas escuras. Clique na imagem para ver em tamanho maior.