terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Grande Nuvem de Magalhães - Aprimorando a Técnica de Fotografia em Tripé Fixo

A Grande Nuvem de Magalhães - 90 frames de 8 segundos em ISO 6400. Lente de 50mm - Canon T2i modificada e tripé fixo.

A fotografia em Tripé fixo é uma das técnicas mais interessantes para quem está começando na Astrofotografia. É de longe a forma mais simples, barata e portátil de se fotografar o céu. Para praticá-la basta uma câmera DSLR e um tripé de maquina fotográfica comum. É uma solução para quem tem pouco dinheiro em caixa e sabe que se tentar comprar câmera, telescópio e montagem neste momento, vai ficar endividado ou terá que sacrificar a qualidade dos equipamentos, optando por modelos mais baratos. E isso é Algo que quase sempre acaba em arrependimento.

Com cerca de mil e quinhentos reais numa câmera, quinhentos numa lente de 50mm F1.8 e mais uns quinhentos num tripé fotográfico de qualidade e um céu com pouco poluição luminosa você já está apto a produzir imagens como a que vemos acima, da Grande Nuvem de Magalhães, satélite da Via Láctea, a nossa galáxia.

A imagem acima foi produzida ano passado, numa rápida viagem a uma chácara, em Uberlândia. Com o uso de tripé fixo, temos enormes limitações de tempo de exposição por frame, antes que as estrelas produzam rastros, por isso os lightframes usados para a imagem acima tinham apenas 8 segundos de exposição cada. A Grande Nuvem de Magalhães ainda nos ajuda por estar mais próximo do polo. caso estivesse próximo do Zoodiaco, não teríamos mais do que cinco segundos de exposição por frame sem que as estrelas produzissem rastros.

Para compensar o baixo tempo de exposição por frame, temos que apelar para outros recursos: O principal é aumentar o ISO. Os frames desta imagem foram produzidos com ISO 6400, bastante elevado, admito. Para compensar o ruído que um ISO tão elevado produz, temos que fazer muitos e muitos frames. Quanto mais light frames você integrar, melhor o resultado final de sua imagem. Mas vale a pena. Uma frame de 8 segundos em ISO 6400 tem a claridade de uma frame de um minuto em ISO 800.

Outra opção foi abrir mais o diafragma da lente, o problema é que a degradação e as aberrações causadas por uma lente muito aberta não podem ser resolvidas com a aquisição de mais frames. A lente de 50mm, é extremamente ruim para astrofotografia em sua abertura máxima (F1.8), enquanto que em F4.0 a imagem fica quase perfeita. Quando eu tenho a disposição um bom acompanhamento, que me permita frames de até 4 minutos, eu fotografo com o diafragma em F4.0, mas sem acompanhamento eu abro a lente até o limite de uma imagem aceitável. Geralmente deixo a lente de 50mm aberta entre F3.2 e F2.8. Nessa configuração, durante o processamento é necessário um filtro de correção de distorção de lente, diminuindo o coma da imagem. Este processo gera uma pequena perda de campo, mas vale a pena. Uma lente em F2.8 é cerca de duas vezes mais rápida do que uma lente em F4.0.

O resultado é que um frame de 8 segundos em ISO 6400 com a lente em F2.8 equivale a frames de 2 minutos em ISO 800 e com a lente em F4. Sim, com muito mais ruído é claro, mas se nesses dois minutos você faz 16 frames em ISO 6400 e os integra, o resultado é uma imagem com quase, ou até mesmo menos ruído do que um frame único em ISO 800.



Detalhe da imagem do início do post.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Astrofotografia com EQ-1 e lente 75-300mm zoom.

  Ewertonn Dourado mostra o que dá pra fazer com esse setup barato e portátil.


A lente usada pelo Ewertonn custa pouco mais de 600 reais em sites como o Mercado Livre.

Antes de começar este post, devo confessar: nunca simpatizei com as lentes zoom econômicas, como os modelos 18-200mm, 18-135mm ou a 75-300mm tema deste post, mas estas lentes atraem muitos fotógrafos pelo fato de que são muito baratas em comparação ao modelos da linha L. Por exemplo, a lente Canon EF 75-300mm F4.0-5.6 III custa menos de 200 dólares no Estados Unidos, enquanto para adquirir uma Canon EF 70-300mm F/4-5.6L IS USM você terá que desembolsar seis vezes essa quantia.

A diferença mais visível da 75-300mm para sua irmã 70-300 da série L é o estabilizador de imagem (IS), mas não é só este recurso, que é inútil em Astrofotografia de céu profundo, que faz o modelo L custar mais de mil e duzentos dólares. 19 elementos ópticos do modelo L contra 13 da 75-300mm certamente garantem uma imagem superior através da lente mais cara.

Pra ser mais honesto, eu também não indicaria sequer esse modelo L para Astrofotografia de céu profundo. Lentes com zoom geralmente perdem muita qualidade para manterem o recurso de aumento e Astrofotografia é provavelmente o tipo de fotografia que mais exige da óptica de seu equipamento. Por isso eu sempre prefiro lentes prime, ou fixas, como a barata 50mm F1.8 ou a cara, mas esmerada 200mm F2.8.

Mas para minha surpresas, encontrei o astrofotógrafo Ewertonn Dourado, que está fazendo um trabalho muito interessante com uma lente Canon EF 75-300mm F4.0-5.6 III, a lente zoom econômica. Mais ainda, com uma montagem EQ1 e uma DSLR de entrada ele está conseguindo fotos muito boas com um setup bastante barato para os padrões de equipamentos astrofotográficos. É um exemplo que nesta época de dólar alto pode ser um grande alívio para aqueles que querem começar nessa atividade e não possuem muita munição no cartão de crédito.

Veja abaixo algumas fotos feitas com a lente 75-300mm, EQ1 Celestron Astromaster motorizada e câmera Canon T3 não modificada feitas pelo Ewertonn. Todas as imagens foram capturadas com a lente em sua distância focal máxima (300mm) e com a máxima abertura possível nesta distância (F5.6).

Galáxia de Andrômeda - M31 - Capturada com 428 frames e tempo total de captura de quase 2 horas.

Nebulosa Barnard 33 - Capturada com 176 frames de 30 segundos em ISO 1600. Exposição total de 1hora e 33minutos
Galáxia do Escultor - Capturada com 131 frames de 15 segundos em ISO 1600 .



Repare que o Ewertonn fez as imagem acima com exposições curtas, mas com enorme quantidade de frames. Assim ele conseguiu superar muito as limitações de seu setup. E a lente de 75-300 mostrou algumas aberrações, mas nada que impeça de se começar em astrofotografia de forma divertida. As imagens possuem um razoável nível de recorte (acredito que cerca de metade da área das imagens originais foi retirada), mas isso é algo que eu também faço muito quando estou fotografando objetos menores do que o campo que o meu setup é capaz de capturar. Contando as bordas da imagem o Ewertonn consegue também tirar muito das aberrações da lente, que geralmente são piores próximo a borda. Fiquei admirado principalmente pelo fato de que em todas as fotos feitas por ele com a lente em 300mm de distância focal, ela ficou totalmente aberta em F5.6.

Esta setup: lente econômica, EQ-1 motorizada e câmera DSLR T3 não modificada é provavelmente o setup mais barato para se praticar astrofotografia de céu profundo com razoável qualidade. Sem contar que também possui excelente portabilidade. A Lente 75-300 é vendida por cerca de 600 a 700 reais no mercado livre, enquanto a Canon T3 nova está na faixa de 1400 reais. A montagem EQ-1 pode ser comprada separadamente, mas é mais fácil encontrá-la junto com telescópios. Todo esse equipamento junto custará algo em torno de três mil reais se comprado novo, enquanto um setup formado por uma EQ5 com guiagem e um bom telescópio apocromático, mais uma DSLR modificada, ficaria hoje próximo dos dez mil reais e seria um conjunto muito mais pesado, embora, apresentasse resultados bastante superiores, é claro. 

O Ewertonn começou há pouco tempo a usar esta lente. Por isso, tenho certeza que em breve ele irá nos mostrar novas imagens, para vermos do que uma lente de 75-300mm é capaz.

Vale lembrar que ele esta usando o motor para EQ-1 com controle remoto e bolsa para 4 pilhas grandes. Esse motor é muito superior àquele menor, em que o conjunto todo fica na mesmo corpo e é necessário ficar regulando a velocidade da montagem, o que dá um certo trabalho. Este motor com controle remoto pode ser encontrada no Armazém do telescópio ou no Astroshop.

O Ewertoon usa uma EQ-1 do tipo Astromaster, da Celestron, que é compatível com os motores para EQ-1 padrão, como as da Skywatcher, Orion, e outras da própria Celestron

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O exemplo do astrofotógrafo Carlos Fairbairn

Carlos Fairbairn, ao lado se seus setups compactos e simples, mas que são equipamentos ideais para astrofotografia de céu profundo.
 Carlos Fairbairn é um astrofotógrafo jovem que se destacou muito no meio este ano. Ele conseguiu dois APODs e uma imagem do dia no Astrobin. São reconhecimentos internacionais que colocam a astrofotografia brasileira em evidência no mundo, contra todos os obstáculos que enfrentamos em nosso país. Tais conquistas ajudam a alavancar a popularidade da astrofotografia amadora no Brasil, inclusive com matérias na imprensa de grande alcance, como o Globo.com.

Mas eu decidi falar do Carlos por que não pude deixar de notar suas boas escolhas, principalmente de setup astrofotográfico, adquirindo um equipamento fantástico e de rara portabilidade. Ainda mais que, infelizmente muitas pessoas parecem ter dificuldade para entender quais são os melhores equipamentos para astrofotografia e decidem por caminhos mais tortuosos, que levam à frustração e até à saída do hobby, mesmo que eu constantemente repita em meu blog e redes sociais quais são os equipamentos corretos para astrofotografia.

Veja aqui os posts que indicam equipamentos para astrofortografia

Vamos analisar o setup do Carlos: ele tem não uma montagem equatorial convencional, feita para telescópios, mas um tracker, que é um tipo de minimontagem voltada para a astrofotografia com lentes ou mini telescópios. O modelo que ele usa é o Skytracker da Skywatcher, que causou uma certa sensação no mercado ano passado pela versatilidade e por possuir entrada para autoguiagem, algo raro entre os trackers. A pequena montagem é compacta como uma EQ2, mas tem a qualidade de uma montagem maior e muito mais cara.

Ao invés de usar telescópios, o Carlos tem fotografado com lentes. Em astrofotografia lentes são como telescópios em miniatura. A lente que ele mais usa é uma Canon 200mm F2.8 USM II. Não é uma lente das mais caras. Eu até acho bem barata para as imagem que ela fornece - custa cerca de 700 dólares - já que é considerada uma das melhores lentes para astrofotografia existente. Na verdade, com 200mm de distância focal e uma abertura F2.8, esta lente é um telescópio refrator de 72mm de abertura, mas com uma velocidade muito superior aos telescópios de mesma abertura encontrados no mercado. Como acontece com quase todas as lentes, ela não apresenta seus melhores resultados quando totalmente aberta, mas basta fechar um pouquinho o diafragma, em F4, que temos um telescópio do nível dos melhores apocromáticos, e ainda muito mais rápido que a maioria dos refratores, que tem razões focais entre F6 e F7.5.

Quanto a câmera, aqui o Carlos pegou pesado na hora de investir. Ele trabalha com uma Canon 5D Mark III, uma das melhores full frames da Canon. Se compararmos o preço em dólares da 5D com a lente de 200mm e o Skywatcher Adventure temos que a câmera representa quase setenta por cento do preço do setup. Ou seja o esforço financeiro foi quase todo concentrado na câmera. Chega a parecer exagero, mas o resultado se mostra em imagens coma o abaixo, que foi foto do dia no Astrobin. E olha que ele ainda nem modificou a câmera.


A maioria dos novos astrofotógrafos tende a achar que a câmera é só um acessório a ser acoplado ao telescópio. Na verdade é o contrário. A câmera é o equipamento fim aqui. Ela são os olhos do astrofotógrafo, tudo o mais é que são acessórios. O resultado é que muitas vezes temos astrofotógrafos com telescópios fantásticos sem conseguir bons resultados por anos devido a insistência de não investir devidamente numa câmera realmente boa. Principalmente quando o objetivo é céu profundo, que exige câmeras mais caras, com resfriamento e sensores grandes e sensíveis.

Mas preste atenção: não estou dizendo que investir em telescópio ou montagem ruim seja a solução. Pelo contrário, todo equipamento dará seu retorno de acordo com o investimento feito, mas posso dizer com certeza que nenhum equipamento de astrofotografia dá mais alegria pelo dinheiro gasto do que uma boa câmera.

Mas não é só por ter o equipamento certo que o Carlos tem se destacado. Ele também tem se revelado um perito em processamento. Para mim, o que mais me chama a atenção em suas fotos e ele conseguir revelar nebulosas realmente pálidas, como na imagem abaixo, onde ele mostra tudo o que existe para se ver na região do Cinturão e Espada de Órion.



Agora vai uma dica, muito do aprendizado de processamento do Carlos foi graças a uma seção no Astrobin que pouca gente conhece, onde astrofotógrafos disponibilizam seus frames de captura ou processamentos crus para que você, que ainda não adquiriu seu setup astrofotográfico possa ir treinando processamento desde já.


E o Carlos ainda deve melhorar mais ainda no futuro. Seu equipamento, por melhor que seja, ainda tem algumas limitações. Em breve ele deve instalar autoguiagem em sua Skytracker Adventure e conseguir frames mais longos que os atuais um minuto que tem conseguido com a lente de 200mm. Além disso, quem sabe um dia ele tome a coragem de modificar a sua Canon 5D. Uma decisão que não será nada fácil, pois modificar um DSLR sempre incorre no risco de algo dar errado. Enquanto isso, vamos torcendo por céus limpos e que ele nos traga novas imagens de tirar o fôlego como as que estão em sua galeria no Astrobin.




segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Conceitos básicos da captura em Astrofotografia: Tempo de exposição, ISO e razão focal.

Meio que complementando o post de Dicas básicas para quem quer começar na Astrofotografia, que recomendo a leitura, e devido a muitas perguntas que recebo sobre o tema, decidi fazer um texto sobre os conceitos básicos que todo astrofotógrafo deve entender antes de iniciar a captura de um astro.

Tempo de exposição: é o tempo que o sensor da câmera permanece ativado captando luz. Existem dois tempos de exposição em astrofotografia: O tempo de exposição por frame e o tempo de exposição total.

tempo de exposição por frame é o tempo que a câmera permanece ativada capturando fótons em cada frame durante a captura. Esse tempo depende das condições do céu, da câmera do astrofotógrafo, do tempo que a montagem consegue acompanhar com perfeição e também do objeto fotografado. Objetos mais brilhantes, como a Nebulosa da Lagoa, podem ser bem registrados até com frames de 15 segundos de exposição, já objetos mais pálidos, como a Nebulosa Cabeça do Cavalo, exigem frames de pelo menos uns dois minutos numa DSLR.

Tempo de exposição total é a soma do tempo de exposição de todos os frames. Se você tem um registro de 10 frames de 6 minutos, então tem um tempo de exposição total de uma hora. Como quantos mais frames integrados melhor é o resultado final, quanto maior o tempo de exposição, melhor. É importante dizer que frames de calibração, dark, flats e bias, não contam na soma do tempo de exposição total, somente os lights.

Em astrofotografia planetária o tempo de exposição por frame é muito curto, de cerca de um centésimo a um décimo de segundo. Neste tipo de astrofotografia não é importante dizer o tempo de exposição, mas o número de frames capturados.

ISO: É o nível de sensibilidade da câmera. quanto mais elevado estiver ajustado o ISO de sua câmera, mais luminoso ficará o frame, entretanto o ISO tem um efeito colateral danoso: quanto mais elevado, mais ruído a imagem produzirá. É por isso que câmeras CCD voltadas para céu profundo nem sequer tem esse ajuste, fotografando no nível de sensibilidade mínimo possível.

Em câmeras DSLRs o ISO costuma ter o seu mínimo em 50 ou 100 e um máximo que pode variar muito de acordo com o modelo, por isso se você pretende fotografar com ISOs altos é importante entender o comportamento de cada modelo antes de adquirir uma DSLR. A maioria das DSLRs de entrada, com sensor cropado, como as Canon T5i, possuem ISOs máximo entre 3200 e 6400. Geralmente os melhores resultados destas câmeras estão no ISO 400 a 1600. Já DSLRs full frames podem atingir ISOs de 25 mil ou mais e registrar com ISOs mais elevados com muito menos ruído. Geralmente o ISO 3200 de uma DSLR full frame consegue ser melhor do que o ISO 800 de uma DSLR cropada. Mas é claro, DSLRs full frame são bem mais caras.

Nas câmeras de captura planetária a sensibilidade costuma aparecer como "ganho". Até pouco tempo era recomendado que esse ajuste sempre estivesse no mínimo, mas os novos modelos, como as ZWO, QHY5 ou Expanse permitem que você eleve este ajuste, capturando mais frames no mesmo tempo e conseguindo excelentes resultados em sua captura final.

A grande vantagem do ISO é reduzir o tempo de exposição necessário em cada frame. Se você fizer um registro de 30 segundos em ISO 800, conseguirá um frame com a mesma iluminação de um frame de 60 segundos em ISO 400, o problema será que o frame em ISO 800 terá mais ruído. Por isso ISOs mais elevados são utilizados não para se reduzir o tempo total de exposição, mas o tempo de exposição por frame, pois, ao se fotografar em ISO 800, é recomendado que você integre o dobro de frames que integraria caso estivesse fotografando em ISO 400. 

Astrofotógrafos recorrem a ISOs mais elevados quando precisam fazer frames com tempos de exposição mais curtos. Isso ocorre geralmente devido a dificuldades no acompanhamento dos astros em seu equipamento. Por exemplo, você quer fazer frames de dois minutos de exposição, mas com esse tempo de exposição as estrelas estão deixando rastros, não estão redondas ou mesmo estão esticadas a ponto de parecerem pequenos traços. Muitas vezes a única forma de resolver isso é diminuir o tempo de exposição por frame até que as estrelas fiquem redondas. Para compensar a perda no tempo de exposição por frame, você aumenta o ISO e para compensar o ruído de um ISO mais elevado, você aumenta o número de frames.

Razão focal: É a relação entre a distância focal e a abertura de seu instrumento óptico. Por exemplo, um telescópio de 1000mm de distância focal e 200mm de abertura tem uma razão focal F5. Um telescópio com a mesma abertura, mas 2000mm de distância focal, tem uma razão focal F10. Quanto maior for a abertura em relação a distância focal, menor é a razão focal. Só que quanto menor for a razão focal de seu telescópio, mais rápido ele captura luz numa proporção geométrica. Um telescópio com razão focal F5 captura luz 4 vezes mais rápido do que um telescópio com razão focal F10.

Nas lentes, ao contrário dos telescópios, a razão focal costuma ser definida como Abertura. Por isso uma lente de 100mm F2 na verdade é um pequeno telescópio com 50mm de abertura. Se fosse uma lente F4, seria um pequeno telescópio com 25mm de abertura. As lentes tem a capacidade de ajustar a razão focal, reduzindo a absorção de luz através do diafragma. Isso parece ruim, mas geralmente quando se fecha um pouco essas lentes a qualidade da imagem tende a melhorar, diminuindo aberrações causadas por deficiências ópticas do instrumento. São raras as lentes que astrofotografam bem em sua maior abertura, geralmente são as mais caras.

Lentes Canon de 50mm e abertura/razão focal F1.8, F1.4 e F1.2. Repare como o tamanho da lente aumenta quando a razào focal diminui. (Foto: Astrosurf.com)


Obviamente instrumentos ópticos de menor razão focal são os preferidos para fotografia de céu profundo, mas eles também são maiores e mais caros, pois a construção de um instrumento de menor razão focal é mais complexa do que a de um com razão focal maior.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O "Super" Eclipse total da Lua de 28 de setembro de 2015

O Eclipse de ontem e as estrelas em volta. Destaque para HIP1421 prestes a ser ocultada pela Lua.


Ontem tivemos um belo eclipse total da Lua ocorrendo sob os céus dos brasileiros que tiveram a sorte de não terem nuvens entre eles e o fenômeno. Estas nuvens, por sinal, infelizmente atrapalharam a maioria dos meus colegas em outros lugares do Brasil, enquanto aqui em Brasília esperaram o ápice do evento para invadirem os céus. Na verdade, pelo que tenho visto nas redes sociais, parece que quase ninguem conseguiu registrar o eclipse totalmente em nosso país. A partir das onze e meia da noite as nuvens mandaram ver no Brasil.

Mas o tempo que tive antes do céu nublar foi bem agradável. Da varanda de meu apartamento acompanhei tudo sentado ao lado de um tripé, com o Ioptron SkyTracker e a Canon sobre ele. E, é claro, também estava com minha lente de 200mm FD velha de guerra.

Minhas companhias foram minha esposa e filha de 3 anos, que numa noite tão quente estavam alegres de acompanharem o evento da varanda, pois estava difícil ficar dentro de casa.

Fiquei sabendo que o Clube de Astronomia de Brasília organizou um evento de observação pública e encontro de telescópios na Praça dos Três poderes. Parece que o evento fez um estrondoso sucesso, com cerca de cinco mil pessoas presentes. Foi o Woodstock da astronomia observacional amadora em Brasília. Yeah!! De negativo só a história de quem um dos participantes, sem o conhecimento do clube, decidiu cobrar para que as pessoas pudessem observar em seu telescópio. Isso não se faz, ainda mais por que o evento foi patrocinado pelo CASB, que sempre permite que as pessoas observem gratuitamente em eventos na praça dos três poderes.

Da tranquilidade de minha varanda eu fiz até algumas fotos interessantes. A lente de 200mm foi escolhida no lugar do telescópio por que mostra mais em volta da Lua e eu queria pegar as estrelas que ficariam visíveis durante o eclipse. Mas confesso que a preguiça de montar e desmontar o telescópio também foi fator determinante.

Para fazer a imagem do topo deste post eu fiz uma única exposição, de 10 segundos em ISO 400. Um dark frame também foi feito, com o mesmo tempo de exposição e ISO, como deve ser, e subtraido no Adobe Photoshop, com o comando "Aply Image - subtract". O Skytracker da Ioptron permitiu tanto tempo de exposição sem que as estrelas deixassem rastros. No Adobe Um filtro máximo em 2x foi aplicado para aumentar as estrelas, que depois foram levemente desfocadas. Nenhum tratamento foi aplicado sobre a Lua, que está em cores naturais.

O eclipse logo no início, registrado com a lente de 200mm e depois recortado para mostrar detalhes do nosso satélite. A quantidade de detalhes que se vê, para um foto com lente, impressiona.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Complexo Nebular - Rho Ophiuchi


Imagem registrada com Câmera DSLR Canon T2i modificada e Lente de 135mm F2 durante o Sexto Encontro Brasileiro de Astrofotografia.


A Região de Rho Ophiuchi é uma das mais belas de nossa galáxia. Ali é possível encontrar quase de tudo, aglomerados globulares, estrelas múltiplas, nebulosas escuras, de reflexão e também de emissão. É um dos lugares do céu que mais atraem astrofotógrafos, sejam iniciantes ou experientes.

Localizada bem no "coração" da Constelação de Escorpião, visível principalmente no inverno brasileiro, Rho Ophiuchi tem alguns alvos interessantes para serem registrados com telescópio. O mais destacado é o aglomerado globular M4. Mas é a fotografia com lentes que mostra toda o beleza da região e a forma como as Nebulosas interagem umas com as outras. Um registro com lente de 50mm, como o do fim deste post mostra ainda como a região interage com a própria Via Láctea. As nuvens de poeira fazem uma ponte entre a nossa Galáxia e o Complexo. Seria Rho Ophiuchi uma galáxia menor que está sendo absorvida pela nossa? Eu não sou especialista nesta área e não consegui achar nada na internet sobre isso, então não sei a resposta. Esteja livre para responder nos comentários.

Quando fazemos o primeiro frame da região, o que aparece pode desanimar um pouco o astrofotógrafo iniciante, dando a impressão que não conseguiremos captar todos os detalhes do complexo. É preciso fazer muitos frames e depois mandar ver no processamento, no realce das cores e no contraste, por isso há uma grande variedade na qualidade das imagens que são encontradas na internet, mesmo quando registradas com o mesmo equipamento, pois aqui a mão do astrofotógrafo influi muito no resultado final.

Imagem de um único frame sem qualquer tratamento. O que aparece não é bem o que esperamos quando começamos a registrar. O trabalho de processamento é longo até a região ficar como estamos acostumados a ver em fotos na internet.

Uma câmera modificada não é obrigatória para o registro de Rho Ophiuchi, já que as nebulosas de emissão, que necessitam desta modificação, não são a única coisa interessante para se registrar. Sempre exigido é que a câmera seja boa, no mínimo uma DSLR. O céu também tem que ser bem escuro, sem poluição luminosa. Quanto mais escuro melhor, senão o trabalho para tirar a luz parasita vai deixar suas "cicatrizes" na imagem. Como em qualquer astrofoto de céu profundo, quanto mais tempo de exposição menos ruído e mais você poderá realçar o contraste. Recomendo no mínimo uma hora e meia de exposição total, com frames de 2 a 3 minutos no mínimo (em ISO 800 ou 1600). Com frames de 5 minutos a situação melhora ainda mais, mas preste atenção se não está estourando nada. Não é uma região ideal para fotografia com banda estreita, devido as nebulosas de emissão serem muito pálidas em relação ao resto do complexo. Talvez com maiores aumentos valha a pena explorar a nebulosidade em volta da região de Al Nyiat, que é interessante e bem pouco explorada.

Aqui foi utilizada uma lente de 50mm, com a mesma câmera. É possível ver as nuvens de poeira agarradas pela Via Láctea.

Esta imagem feita com telescópio refletor de 200mm Orion UK VX8 e CCD monocromática Atik 314L+, mostra interessantes formações de Hidrogênio Alpha em torno da estrela Al Niyat


domingo, 13 de setembro de 2015

Adaptador para lentes Canon EF em câmeras ATIK com roda de filtros, por Eduardo Oliveira.

O texto abaixo não foi feito por mim. Ele foi enviado pelo Eduardo Oliveira, um grande astrofotógrafo que tem nos acompanhado nos Encontros Brasileiros de Astrofotografia. No texto, o Eduardo mostra como fazer um adaptador para lentes Canon EOS EF em câmeras Atik e que ainda permite o uso de roda de filtros, algo que os adaptadores vendidos comercialmente não fazem. Obrigado Pela colaboração Eduardo.


UM ADAPTADOR PARA A ATIK 314L+ E LENTES CANON EOS EF QUE PERMITE O USO DE RODA DE FILTRO

Desde que recebi a minha CCD, uma Atik 314L+, que eu tive a vontade de usá-la com as minhas lentes Canon EF. A Atik 314L+ é baseada em um sensor, o SONY ICX-285AL, que possui 1360 x 1024 pixels (em um sensor com 11 mm de diagonal). Este sensor pequeno, combinado com distâncias focais elevadas, fornece um campo de visão muito pequeno. Para dar um exemplo, a Atik314L+ com meu RC8 (com 1625 mm de distância focal) me fornece um campo de apenas 14.2 x 19 minutos de arco, com uma resolução de 0,82 segundos de arco por pixel. Isto é um campo adequado para pequenas galáxias, mas é inconveniente para muitos outros alvos. Para ter-se uma ideia, um campo deste mal dá para fotografar a nebulosa de Órion (ver Figura 1 abaixo), a menos que você encare um mosaico trabalhoso, ou utilize um telescópio de menor distância focal. Por isso, acoplar as lentes Canon EF com a Atik me pareceu tão interessante desde o início.

  Figura 1. M42 e o campo da combinação Atik 314L+ e um RC8 (1625mm de distância focal)

Há um adaptador comercialmente disponível (Figura 2) que permite utilizar as lentes Canon EF com a Atik 314L+. Ele é produzido pela empresa italiana Geoptik, e pode ser comprado na Teleskop Express por 119 euros (502 reais na cotação de 02 de Setembro de 2015). Além de ser um acessório com preço bem salgado, ele só permite a utilização de filtros de banda estreita ou filtros LRGB através da troca manual dos filtros. É verdade que o adaptador vem com um uma peça que permite inserir filtros de 1,25 ou 2 polegadas, mas trocar estes filtros manualmente, no meio de uma sessão de astrofotografia, geralmente no escuro, nunca me pareceu uma alternativa muito viável. Quando eu recebi a minha CCD Atik, encomendei também uma roda de filtros motorizada (a EFW2), pois é bastante conveniente você poder trocar os filtros de forma automatizada, controlada por software, sem nem mesmo precisar tocar na sua CCD. Por estas razões eu não investi no adaptador da Geoptik e continuei a procurar uma alternativa de adaptador que me permitisse usar também a roda de filtros. 

 
Figura 2. O adaptador comercialmente disponível da Geoptik para a Atik (rosca T2) e as Lentes Canon EOS

Uma postagem de um astrofotógrafo britânico no stargazers lounge me colocou na direção correta. A postagem original pode ser encontrada aqui. Como o meu adaptador utilizou peças diferentes do dele, e tem uma montagem mais simples, vou detalhar aqui a sua confecção.
Material necessário:
  1. Um adaptador Atik M42 para M57 (OPT part number, A3-M54/M42). Preço: 18 dólares

  1. Um “Vello Manual Extension Tube Set for Canon EF/EF-S-Mount”, (disponível na BH Photovideo). Deste kit você só irá utilizar o anel mais à esquerda na foto. Preço: 18,50 dólares.
  1. Cola Epoxi Loctite Power Crystal Cola Epoxi 16g, disponível em lojas de material de construção.


Seria muito simples produzir este adaptador se a distância entre o plano do sensor da CCD e o flange da lente Canon EF (chamada de “registration distance”) não tivesse que ser de exatamente 44 mm para que a lente possa alcançar foco no infinito. Mas para construir o adaptador de forma que esta distância seja respeitada (e você consiga fazer foco) precisamos tecer algumas considerações. Precisamos lembrar que a configuração final do conjunto será formada por: CCD Atik>roda de filtros EFW2>adaptador a ser construído>lente Canon EF. A distância entre o sensor da Atik e o flange da câmera precisa ser de 44mm. A dificuldade é construir um adaptador que garanta, quando rosqueado, que esta distância seja atingida. No post original do stargazers lounge há uma foto que mostra exatamente do que estou falando (veja a Figura 3). Na foto abaixo pode-se verificar que o adaptador, encaixado de um lado na baioneta da lente EF, e do outro na roda de filtros, permite que a distância final entre o sensor da CCD e o flange da lente seja de 44mm:


Figura 3. A distância entre o flange da lente (neste caso uma sigma EF) e o plano do sensor da Atik 314L+ tem que ser de 44 mm. Créditos: Coco, Stargazers Lounge

O adaptador que eu fiz foi simples. Ele é basicamente o adaptador M42/M57 do item 1 na seção de materiais deste post, colado com cola epóxi ao anel mais à esquerda do item 2. Dá para ver uma foto aqui do adaptador pronto (Figura 4)


Figura 4. O adaptador pronto.

Eu peguei o anel mais à esquerda do item 2 (em “Material necessário”), ou seja, o anel que possui o adaptador da baioneta, e pedi a um torneiro mecânico desbastar dele, exatos 5mm. Estes 5mm foram calculados para o meu setup, para a sua roda de filtros e sua câmera você precisará calcular a distância correta, de forma que rosqueado com a roda de filtros você atinja os 44mm. Este desbaste foi feito com um torno mecânico, do lado oposto ao do encaixe de baioneta. Minha ideia inicial foi fazer este desbaste utilizando um corte com uma serra para metais, mas logo percebi que seria muito difícil fazer isso de forma uniforme ao longo de todo o diâmetro da peça com precisão milimétrica, por isso aqui não tem outra forma senão colocar este serviço nas mãos de um torneiro profissional. O anel, após o desbaste ficou com exatos 7 mm após o desbaste. Na Figura 5 abaixo dá para ver em melhor detalhe a estrutura do anel que precisa ser desbastado. 

Note que há duas faces do anel. Uma que é na cor de alumínio, aonde se localizam os parafusos de fixação (indicados pelas setas) e um pino que serve para travar o anel na lente e a outra face na cor preta. Há dois pontos importantes a observar nesta operação de desbaste: O primeiro é que a face do anel que sofrerá a ação do torno para reduzir sua espessura é a face oposta à indicada, ou seja, a que aparece voltada para baixo, oculta, na figura. O outro ponto é que é uma boa ideia desparafusar (nos 4 parafusos indicados pelas setas) este anel de alumínio externo, antes de colocar a peça no torno, de modo a facilitar a fixação da peça e ao mesmo tempo evitar danificar este anel externo no processo, já que é este anel que possui as lâminas que asseguram o travamento do adaptador na baioneta da lente. Você irá notar que desbastar 5mm da peça significa desbastar até atingir o mecanismo de trava (circulado na Figura 5). Isto deixa o mecanismo sem a mola original, mas não impede de ser utilizado com a função de trava após completar a confecção do adaptador. Por esta razão também é uma boa ideia remover esta travinha antes de levar a peça ao torneiro. Para isso, após desparafusar nos locais indicados e remover o anel externo de alumínio como sugerido anteriormente, aproveite e com um alicate, desrosqueie girando no sentido anti-horário a cabecinha da trava para removê-la.


Figura 5. Anel que sofrerá desbaste para montar o adaptador. As setas indicam os parafusos para remover o anel de alumínio externo. O círculo (bem, deveria ser um círculo) mostra o mecanismo de travar na lente.

Novamente, e isto é muito importante: a peça deve ser desbastada o suficiente para que, após reafixar o anel de alumínio externo, a mesma fique com 7 mm de espessura.
O passo seguinte será colar o “adaptador Atik M42 para M57” no anel desbastado como especificado acima. Neste processo deve-se ter cuidado para não colocar uma camada tão espessa de cola epoxy que a cola acabe atingindo e colando nas lâminas metálicas que se encaixam na baioneta da lente. Eu passei a cola no adaptador M42 para M57 (na face oposta à face M57, macho, ver Figura 6 abaixo). Use a cola epoxy conforme as instruções do fabricante. Chamo a atenção para respeitar o tempo após a mistura da cola e do secante e promover uma boa e homogênea mistura entre os dois. Após misturar o conteúdo dos dois tubos, use nas superfícies a serem coladas antes dos primeiros 4 minutos para ter uma boa performance.


Figura 6. Diagrama esquemático mostrando as superfícies a serem coladas

Abaixo, mais fotos do adaptador pronto e conectado a CCD e lente:


Eu testei rapidamente o conjunto, mas a montagem nem mesmo alinhada estava. Foi uma exposição com filtro de Luminância, de 2s da região próxima à estrela teta de escorpião (Sagras). O foco pode melhorar um pouco com uma máscara Bahtinov, mas deu para confirmar a funcionalidade do adaptador, que por 36 dólares é uma excelente opção para a Atik 314L+ e Lentes Canon EF.



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Boa notícia: Novos motores para montagens EQ-1 e EQ-2 estão disponívens no Astroshop e Armazém do Telescópio.

O motor que possui controle de mão e usa pilhas grandes é um conjunto maior, mas muito melhor do que aquele movido a bateria de 9V.


Ontem me surpreendi com a volta dos motores de passo com controle de mão para montagens EQ-1 e EQ-2. Estes motores são muito, mas muito melhores do que aqueles que usam bateria de 9V, com os controles no próprio motor, pois você não precisa ter que ficar regulando a velocidade até achar o ponto certo, o que gera uma grande dor de cabeça durante o uso. Além disso, estes motores com controle de mão não travam o eixo de ascensão reta, permitindo que você use o controle de movimento manual da montagem mesmo com o motor atracado a ela. E por fim, após testar os dois modelos por algum tempo, posso dizer com certeza que este modelo é muito mais preciso e robusto, gerando muito menos frames defeituosos.

Este motor com controle de mão numa montagem EQ-1 ou EQ-2 cria uma setup bastante barato e portátil para astrofotografia com DSLRs e lentes (retirando o telescópio antes, senão fica muito pesado). Com uma EQ-1 motorizada com este motor, eu cheguei a conseguir tempos de exposição de até 1 minuto ao usar uma DSLR com lente de 135mm e o sistema é robusto o suficiente para fotografias até mesmo com lentes de 200mm. Também cheguei a conseguir imagens com um telescópio de 90mm e DSLR. Foram tempos de exposição mais curtos, de 15 segundos, mas que me permitiram fazer a imagem da Nebulosa do Haltere (M27) abaixo.

O motor com controle remoto só tem a desvantagem de ser um conjunto um pouco maior do que o motor movido a bateria de 9v. Afinal, ele é compostos por 3 peças: o motor, o controle de mão e também uma bolsa para as baterias. Mas vale muito a pena carregar este peso a mais. Este motor é o mesmo usado para movimentar montagens EQ3-2, quer dizer, é feito para segurar bastante peso. Acho que se não estiver ventando dá pra conseguir até tempos de exposição bastante razoáveis com telescópios de 114mm ou 90mm, talvez uns 30 segundos ou mais.

Vale lembrar que você deve adquirir o motor compatível com a sua montagem. No site da Astroshop eles informam quais montagens são compatíveis e você deve ficar atento a isso. Caso contrário, pode ter problemas (Eles parecem um pouco confusos em relação a montagem CG3). Existem dois motores disponíveis: para montagens EQ-1 e EQ-2. Infelizmente a nem Astroshop nem o Armazem do Telescópio tem as montagens para venda, mas você pode adquirir telescópios que tenham a montagem no conjunto. E se você já tiver um telescópio com uma montagem compatível, este é o motor certo a se adquirir, não o com bateria de 9V. Também é recomendado a aquisição de 4 pilhas grandes recarregáveis e o devido carregador, facilmente encontrado no Mercado Livre ou semelhantes.

Entenda que estes motores funcionam num único eixo, o de Ascensão Reta. O que de forma alguma prejudica a fotografia ou observação de objetos, já que o eixo de declinação não é movido durante o acompanhamento da movimentação do céu e estas montagens permitem o ajuste deste eixo de forma manual com controles de precisão. O motor também não vai fazer que seu telescópio se transforme num modelo Go-To, que encontra os objetos automaticamente. Ele é voltado principalmente para quem quer iniciar na astrofotografia ou visualizar com mais conforto em telescópios mais simples. Além disso, na montagem EQ-1 a movimentação da estrutura é atrapalhada pelo motor em alguns pontos, por isso eu recomendo, que se possível, tente montar o conjunto para EQ-2, que tem o eixo de ascensão reta mais comprido, diminuindo este problema.

Links para os motores:  




Nebulosas Pata do Gato e da Lagosta (ou Guerra e Paz) registradas com DLSR modificada, lente de 135mm F2.8 e montagem EQ-1 motorizada com o motor com controle remoto movido a pilhas grandes. Clique na imagem para ver maior.


M27, registrada da varanda de meu apartamento com EQ-1 motorizada com o motor de controle remoto, aguentando um telescópio de 90mm e a DSLR.



terça-feira, 25 de agosto de 2015

A revolução das Impressoras 3D chega aos equipamentos astronômicos.

Constelação de Orion, registrada com lente de 50mm e DSLR modificada. Trata-se de uma composição em que a captura sem filtro foi integrada a um registro com o filtro H-alpha na DSLR, que anexou-se entre o sensor e a lente graças a um adaptador feito em impressora 3D.


Mais de uma vez eu comentei aqui como é difícil se conseguir equipamentos astronômicos no Brasil, devido as dificuldades de importação e aos baixos estoques das lojas. Uma das áreas onde isso é mais grave é a de acessórios e adaptadores. Estes últimos, diga-se de passagem, são muito importantes principalmente na astrofotografia, quando você precisa montar setups complexos, com câmeras, lentes, telescópios, buscadores, setups de guiagem e não sabe exatamente como encaixar uma coisa na outra.

Lá fora a gama de adaptadores disponíveis é enorme, enquanto aqui, as poucas lojas que vendem este tipo de equipamento estão na maior parte do tempo com as suas poucas opções fora de estoque.

Mas nos últimos anos tem acontecido uma revolução interessante num outro campo de equipamentos, e que pode ajudar muito os astrônomos e astrofotógrafos amadores: as impressoras 3D. Impressoras 3D são aquele tipo de tecnologia que no começo surge como uma aparente brincadeira cara para geeks, mas que as pessoas vão descobrindo funções cada vez mais interessantes e quando percebermos, se tornaram um equipamento essencial para muita gente.

Eu já tinha pensando em impressoras 3D para fabricar adaptadores e acessórios astronômicos, mas tive receios em relação ao preço, ao fato de serem máquinas ainda complexas e também se o material plástico usado por elas teria resistência para substituir peças que normalmente são feitas de metal.

Mas recentemente um colega começou a vender nos fóruns astronômicos e Mercado Livre, acessórios para câmeras e telescópios feitos numa impressora 3D. Eu logo me interessei por um, que permitia usar filtros feitos para telescópios com lentes em câmeras DSLR. Existem filtros sendo vendidos assim lá fora. São fabricados pela Astronomik e chamam-se EOS Clip, mas um filtro H-alpha de 12nm da Astronomik com este formato custa 190 dólares. Quer dizer, mesmo comprando um no exterior, com a cotação do dólar turismo de hoje em quase 4 reais, este filtro custaria cerca de 800 reais para mim. Se eu comprasse no site para entregar no Brasil, a brincadeira custaria muito próximo de uma DSLR de entrada. Mas a peça vendida pelo colega me permitiu usar um filtro H-alpha de 7nm que já possuo  com a lente de 50mm. E a peça me custou 35 reais. Não dá pra dizer que não foi uma bela economia. Eu também adquiri um suporte para laser com pezinho para buscadora, para me ajudar a fazer falsas estrelas polares em encontros de astronomia.

Ao receber as peças logo vi que o acabamento não é exatamente o mesmo de um produto industrializado. É possível claramente ver os filamentos usados para a impressão e em alguns pontos há um aspecto de tinta solta. Não são como as peças de metal dourado da Geoptik, mas não há rebarbas e, o mais importante, as peças me pareceram bastante sólidas e o desenho estava perfeito.
Ambas foram usadas durante o último encontro observacional do CASB. O suporte para laser na verdade foi usado o tempo todo, tanto para fazer falsa estrela polar, como também para apontar para o Cometa C/2013 US10 Catalina, que está cruzando os céus, e ajudar os outros participantes a verem o cometa em suas oculares ou câmeras.

O clip para filtro foi usado somente uma vez. O ponto negativo é ser necessário tirar o vidro da montagem para usá-lo, o que, se não for feito com cuidado, pode causar danos ao vidro ou mesmo queda e consequente quebra. Mas não é necessário nada além de colocá-lo sobre o clip e colocar a lente. A imagem no alto deste post, foi feita com a ajuda de um filtro H-alpha, colocado na câmera com o adaptador, complementada com uma captura com a câmera sem o filtro. As duas imagens foram integradas para que a constelação de Orion mostrasse, além de suas estrelas e nebulosas mais brilhantes, o enorme Barnard's Loop, grande nebulosa em formato de semicírculo que sai das proximidades de Bellatrix estendendo-se até perto de Rigel.

É claro que as peças não podem ser comparadas com aquelas feitas em metal, mas como estão sendo usadas para carregar acessórios leves, um pedaço de vidro e uma caneta laser de poucas gramas, atendem perfeitamente. Deve se ter cuidado, ao usar peças feitas com impressora 3D, em substituir componentes que sejam mais exigidos fisicamente, como dovetails e anéis de fixação para grandes telescópios, ou para carregar câmeras pesadas e grandes, como aquelas que acompanham roda de filtro interna. Já para câmeras leves, como DSLRs de entrada, câmeras planetárias, pequenas lunetas de guiagem, entre outros, estes acessórios podem mandar muito bem.


O Clip feito em impressora 3D permite colocar filtro a frente do sensor de uma DSLR com lente (foto Marcelo Bastos)

O Adaptador para laser, com uma base de buscadora dupla. Ambos feitos com impressora 3D (foto Marcelo Bastos).




segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O que são os trackers? Uma opção para quem quer um sistema portátil e simples para astrofotografia com lentes.

Astrofotográfia amadora é tido por muitos como uma atividade bastante complexa, que envolve não apenas telescópio, câmera e montagem, mas também uma infinidade de acessórios, além de um complicado sistema de autoguiagem. Alguns associam uma viagem astrofotográfica a carros lotados até a boca de cases, caixas e bolsas com equipamentos. As vezes é mesmo assim, mas o que muitos não sabem ao começarem na astrofotografia é que existem formas bem simples de se astrofotografar com qualidade, com equipamentos que cabem numa mochila e que podem ser transportados tranquilamente em viagens de ônibus ou avião, sem preocupação em pagar excesso de bagagem, ou até mesmo carregados em longas trilhas.
A forma mais portátil de se astrofotografar é sem dúvida com o uso de lentes (não muito grandes, é claro), no lugar do telescópio. O problema é que, até pouco tempo, as boas montagens eram sempre  dimensionadas para telescópio maiores, por isso muitos astrofotógrafos que registram com lentes, preferiam colocar a câmera montada sobre o telescópio, numa técnica chamada piggy-back, que não ajudava muito a deixar as coisas mais simples.
Felizmente com o crescimento do mercado astrofotográfico nos últimos anos e o aumento das opções de equipamentos totalmente voltados para esta atividade e não pensados principalmente em observação, começaram a surgir montagens bastante portáteis dimensionadas para quem quer registrar somente com a câmera DSLR e lentes menores. São verdadeiras montagens em miniatura, para serem colocadas sobre tripés fotográficos comuns, que permitem ao astrofotógrafo colocar somente a câmera e a lente e conseguir fotos incríveis com um setup muito simples, são os chamados Trackers.
Os trackers são ótimas opções principalmente se o astrofotógrafo precisa se deslocar para locais com céu escuro e não pode ou não quer levar grande quantidade de equipamento, são muito interessantes quando a viagem é rápida, como aquela ida a fazenda de um amigo no fim de semana, ou para viagens muito distantes, principalmente se o meior de transporte usado for aéreo.
O número de trackers no mercado ainda é pequeno, dá pra contar nos dedos, mas são modelos variados, de preços e tamanhos diferentes, que podem ajudar muito o Astrofotógrafo. O mais caros que conheço são o Astrotrac e o Losmandy Starlapse, enquanto o mais barato é o Sky tracker da Ioptron, não por ocaso o que eu possuo, adquirido há algumas semanas durante o Oitavo EBA. Ele tem um concorrente muito semelhante, o Polarie Star Tracker, da Vixen. Mas a grande sensação do mercado atualmente é o Skywatcher Star Adventurer. Que é bem mais barato do que os modelos da Astrotrac e Lonsmandy e mais completo do que os modelos da Vixen e Ioptron.  A Ioptron ainda tem o Skyguider, parecido com o Adventurer, mas com cara de ser mais pesadão.
Eu não vou fazer uma comparação entre todos, principalmente os mais caros, por que não tive contato com eles. Um que não comprei, mas que pude acompanhar de perto trabalhando, foi O Adventurer. usado por dois colegas durante o EBA. Um deles, em especial estava ao meu lado.

Com o conjunto Astro Bundle o Skywatcher Star Adventurer até parece uma pequena montagem e pode ser usado até mesmo com pequenos telescópios e sem a necessidade de uma Ball Head.

O Adventurer vem em três versões, uma mais enxuta, chamada Raspberry, que acompanha Ball Head e telescópio polar, uma intermediária, que recebe o acréscimo de uma base inclinada para alinhar a montagem com o pólo sul (ou EQ wedge), chamada Photo Bundle e uma terceira, chamada Astro Bunble que, além dos acessórios já citados, acompanha um dovetail com adaptador para Ball Head e barra com contrapeso. Esta última versão, mas completa e pra mim a mais recomendada, pois o contrapeso permite maior equilíbrio no acompanhamento, principalmente com o uso de lentes maiores.
Um dos destaques do Adventurer é ter porta de Autoguiagem, permitindo ao usuário uma precisão muito grande no acompanhamento dos astros. Além disso ele vem com modos de velocidade para planetas, Sol e Lua, e outros modos para a elaborações de interessantes time lapses. Completo, com o conjunto Astro Bundle, ele se parece muito com uma minimontagem equatorial. Mas não se engane, falta ao Adventurer motorização no eixo de declinação, caracteristica dos outros trackers, por isso ele não é exatamente uma mini montagem equatorial, como A Smart EQ da Ioptron, que possui motorização no eixo de declinação e até Go-To. No adventurer, como nos outros trackers, você tem que colocar a mão na montagem para posicionar a câmera e ajustar o enquadramento. Essa é uma caracteristicas que geram alguns desconfortos, como a montagem desalinhar com o pólo enquanto você está ajustando. O colega que estava a meu lado no EBA teve que ajustar o pólo várias vezes durante o evento. Eu, com a Ioptron, também passei alguma dificuldade.
O Tracker da Ioptron, que possuo, é bem mais simples que a Adventurer. Trate-se de uma caixa pequena e achatada, com um motor, encaixe para Ball Head, telescópio polar e ajuste de declinação na base. Para usá-lo é obrigatória a aquisição de uma ball head, enquanto no Adventurer é possível posicionar a câmera em qualquer direção somente como o suporte que o acompanha, alguns astrofotógrafos até preferem usar o Adventurer sem a Ball Head, para maior estabilidade.

O Ioptron Sky Tracker é mais simples do que o Star Adventurer, mas ainda é uma opção muito melhor do que uma EQ-1 ou EQ-2.
Um bom tripé também é um acessório fundamental para qualquer tracker. Eu já tinha um em casa que parece que se deu muito bem com o Sky Tracker da Ioptron. Nota: É recomendado retirar a cabeça do tripé e conectar o tracker direto nele, que possui entrada para rosca 3/8. Isso dá muito mais estabilidade e segurança ao conjunto, além de deixar mais leve.
Durante o EBA, eu consegui tempos médios de 3 minutos de exposição com lente de 50mm, 90 segundos com lente de 135mm e um minuto com lente de 200mm, o que considerei muito adequado, mas abaixo do que eu conseguia com a CG-5. Vale lembrar que não usei contrapeso, acessório que pode ser adquirido para o Ioptron e que estou estudando a aquisição. Mesmo assim, são tempos muito superiores ao que eu conseguiria com a EQ-1 num equipamento muito mais portátil.
No Brasil já foi possível adquirir o Ioptron Sky tracker, pelo Caleidocosmo, mas eles pararam de trabalhar com a Ioptron, algo que considerei um erro. Já o Skywatcher Adventurer é vendido no Armazém do Telescópio e está em fase de renovação de estoques. É claro que vivemos uma época complicada no câmbio, mesmo assim, os trackers seguem sendo uma opção barata e portátil para quem que astrofotografar céu profundo em grande campo.

Centro da Via Láctea capturado com o Sky Tracker Ioptron em 28mm e 25 frames de 3 minutos.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Voltando do Oitavo Encontro Brasileiro de Astrofotografia

Com alguns dos participantes do encontro durante a tarde.


Há pouco mais de uma semana eu retornei do 8° Encontro Brasileiro de Astrofotografia, ou EBA. Pra quem não sabe o que é, trata-se de um encontro realizado anualmente pelo Clube de Astronomia de Brasília - CASB, onde astrofotógrafos de muitos lugares do Brasil se encontram num local sem poluição luminosa, para produzirem algumas das melhores imagens de céu profundo publicadas por brasileiros durante o ano e também para trocarem experiências.

O encontro não possui caráter competitivo. Não há uma eleição para melhor foto, melhor conjunto da obra, equipamento mais bonito, nem coisas do tipo, já que definir qual astrofotógrafo é melhor ou qual imagem é superior é algo subjetivo demais para ser avaliado. Os astrofotógrafos se reúnem principalmente para aproveitar o céu escuro e enriquecerem o seu portfólio de astrofotografias, além de trocarem experiências e conhecimento. É comum você ouvir entre os praticantes mais experientes que uma noite de EBA equivale a um ano de astrofotografia sozinho.

Os outros quatro encontros que participei ocorreram numa pousada próxima a Alto Paraíso, com o melhor céu que já vi, mas os altos preços que a pousada insistia em cobrar, aliado a total deficiência em infraestrutura, acabaram desanimando muito o CASB de realizar o encontro no mesmo local outra vez. Só pra se ter ideia, durante estes quatro encontros a administração da pousada jamais se preocupou em sequer arrumar o banheiro do restaurante, obrigado os hóspedes a fazerem fila na sala de televisão da dona da pousada enquanto esperam pela vez de usar o banheiro da casa.

Mas encontrar um lugar que substituísse a pousada em Alto Paraíso nunca foi fácil, o Clube está há anos explorando a região da Chapada dos Veadeiros em busca de um local alternativo para a realização do EBA. Infelizmente encontrar este local é bem mais difícil do que pode parecer num primeiro momento. A grande maioria das boas pousadas parece ser incapaz de entender as necessidades de um encontro como este e as poucas que entendem não tem a estrutura necessária - uma área ampla e plana para instalação dos telescópios, sem obstáculos ao horizonte, ausência de luzes próximas, ausência de hóspedes que não estejam envolvidos com o encontro, entre outras coisas.

Este ano surgiu uma oportunidade quando um dos sócios do clube ofereceu uma fazenda de sua propriedade, próxima a Padre Bernardo - GO para a realização do evento. É claro que por ser um local mais perto de Brasília, o céu não era como o da Pousada em Alto Paraíso, mas o conforto e a atenção do proprietário, com atitudes como, servir o Almoço a partir das duas da tarde, para que todos pudessem dormir o suficiente e desligar qualquer luz que pudesse atrapalhar o evento, fizerem a mudança valer a pena. O fato dele também ser um praticante de astrofotografia faz com que entenda todas as nossas necessidades ou manias.

Para minha surpresa, mesmo com o eixo de ascensão reta perfeitamente alinhado com o pólo, o refletor de 200mm deu muito trabalho sobre a HEQ5.
Infelizmente para mim, em termos de produtividade, este foi um dos piores EBAs. O sistema de autoguiagem, que funcionou tão maravilhosamente no ano passado, com o Refrator de 102mm, não se entendeu com o Refletor de 200mm. Eu levei três dias até conseguir uma guiagem aceitável e quando ela começou a funcionar bem, o céu, que já vinha com muitas nuvens, ficou ainda mas fechado. Sim, este foi um EBA com muitas nuvens. O do ano anterior já não havia sido muito bom e de jeito que o céu de Brasília anda nos últimos dias, fica parecendo que aqueles três meses sem nuvens que tínhamos entre junho e agosto estão deixando de acontecer por aqui. Será culpa do aquecimento global, do El Nino ou da Dilma?

Uma coisa legal no encontro é que adquiri um Skytracker da Ioptron logo no segundo dia, de um colega que tinha comprado ele, mas logo adquiriu um outro Tracker, mais avançado. Eu vou falar destes aparelhos num post em breve. O Skytracker serve para fotografia com lentes, permitindo à câmera acompanhar o movimento do céu. Foi um grande avanço em relação a EQ-1, que usei no primeiro dia. As imagens feitas com este equipamento salvaram algumas noites, em que o refletor e a montagem HEQ5 pareciam se recusar a colaborar. Com ele fiz algumas boas imagens, como uma composição com as principais nebulosas do Cinturão de Orion com lente de 200mm no fim deste post. Foi uma pena que muitos registros com lentes ficaram contaminados por nuvens muito ralas, imperceptíveis a olho nu, mas visíveis em capturas em longa exposição.

Eu com certeza quero voltar ano que vem e nos anos seguintes. A gente nunca consegue produzir a metade do que planeja para o EBA e sempre sai de lá com vários objetos que gostaria de ter registrado e não teve a chance. No mais, parabenizo o Clube de Astronomia de Brasília e o proprietário da fazenda por terem mais uma vez proporcionado aos astrofotógrafos Brasileiros a chance de se encontrarem num local tão adequado a nossa atividade. Só espero que nos próximos anos as nuvens colaborem um pouco mais durante o evento e eu não apanhe tanto do equipamento!!

Um Skytracker da Ioptron foi adquirido de um dos participantes do evento e usado sobre a EQ1, que funcionou somente como tripé.

Imagem capturada com a Canon sobre o Skytracker. uma lente de 200mm F4 da Nikon foi emprestada por um amigo para a captura.

domingo, 28 de junho de 2015

O ED de 102mm da Orion versus o Refletor de 200mm da Orion UK.


Após quase um ano com o telescópio Refletor Orion UK VX8 de 200mm de abertura e de vários anos com o Refrator Orion Premium ED de 102mm da Orion, Resolvi fazer um post sobre minhas impressões em relação ao dois telescópios e divagar sobre qual considero o melhor telescópio para Astrofotografia. A ideia original era fazer um post comparando telescópios refratores apocromáticos com refletores para astrofotografia de céu profundo, mas eu pensei melhor e achei que seria pretensão analisar toda uma classe de telescópios se eu basicamente só tive experiências com um modelo de cada, por isso, este post não será sobre refletores vs refratores, mas sobre o Refrator Orion Premium ED de 102mm F7 versus o refletor VX8 de 200mm F4.5

O Refrator Orion Premium Refrator é da empresa Orion, muito conhecida entre astrônomos amadores e astrofotógrafos. A Orion é uma marca que está num nível intermediário no mercado de equipamentos astronômicos e tem como principal rival a Sky-Watcher. Celestron e Meade também rivalizam com a Orion em vários produtos, embora estas duas últimas se destaquem por oferecerem grandes cassegrains em montagem altazimutais, algo que Orion e Sky-Watcher não fazem.
O Orion Premium, servindo de guiagem para fotografia com lentes.
O Orion Premium foi adquirido nos Estados Unidos, no ano de 2011, durante uma viagem para Nova York. O telescópio, composto somente pelo tubo óptico, veio para o Brasil enrolado no meio das roupas dentro de uma mala rígida. Aqui no Brasil eu o coloquei sobre uma CG-5 e o utilizei em quatro EBAs e quase uma centena de fotos feitas na varanda do apartamento.

Tratava-se, na época da compra, do refrator deste tipo e abertura mais barato a venda no mercado. Ele é composto por somente duas lentes, sendo uma delas produzida com material que não dispensa a luz. É o tipo mais simples de refrator Apocromático. Há até quem não considere o Orion Premium um legitimo Apocromático, o colocando numa categoria intermediária, logo acima dos acromáticos, os refratores mais simples. Estas pessoas consideram como apocromáticos legítimos somente refratores ED com três lentes. Eu não vou entrar nesta discussão, mas é claro que apocromáticos com três lentes devem ter um desempenho superior ao ED de duas lentes da Orion.

O Orion Premium saiu de linha pouco mais de um ano após a aquisição. Não sei qual foi exatamente o motivo, se ele estava tirando mercado de outros telescópios da Orion pelo baixo preço ou se o focalizador problemático acabou manchando o nome do produto a ponto da Orion desistir de sua fabricação. Após alguns meses, a engrenagem do focalizador do meu Orion Premium ficou frouxa, me obrigando a ajudar empurrando ou puxando o focalizador sempre que girava o ajuste. Eu não consegui resolver este problema, vi na internet que era um defeito comum no modelo. Mas ao invés de trocar, acabei me acostumando com o defeito, que não atrapalha tanto assim.

No geral o Orion Premium é um telescópio bastante interessante, com um peso adequado a montagens do tipo EQ5, mesmo com o uso de autoguiagem e uma resolução, e aumento bastante adequado para centenas de nebulosas e galáxias. A distância focal de 710mm, gerando uma razão focal de F7 é bastante típica para modelos em sua faixa de preço. Com ele, fiz algumas de minhas melhores imagens, principalmente quando comecei a utilizar uma CCD monocromática com filtros de banda estreita.

Mas a experiência nos torna mais exigentes. Se a ótica do Orion Premium me parecia perfeita no primeiro ano de uso, apresentando apenas um pequeno coma quando os registros eram com câmeras do tipo DSLR, com o tempo eu fui ficando mais chato com as minhas imagens e os halos azuis que apareciam em muitas estrelas mais brilhantes começaram a me incomodar. O Orion Premium é com certeza melhor do que um acromático, mas está longe da qualidade óptica de um apocromático de ponta, deixando o foco no azul bastante distante do foco no vermelho, indicando forte aberração cromática.

A durabilidade do Orion Premium aumentou no momento em que comecei a trabalhar com banda estreita. Curiosamente, apesar de ser um tipo de astrofotografia considerado mais avançado, o registro com o chamado Hubble Palette pode até ser menos exigente quanto a qualidade óptica do telescópio, já que ao trabalhar numa faixa muito estreita da luz o problema da aberração cromática causada pela distensão da luz torna-se bem menos visível.

Já o Refletor Orion UK VX8 foi adquirido no Brasil, por cerca de três mil reais. Aparentemente um excelente preço, já que estava cerca de 900 euros na Europa. Ele foi comprado porque eu sentia necessidade de um telescópio mais rápido e com maior resolução. Apesar de durante muito tempo ter sempre ficado com o pé atrás em relação a refletores, os 200mm de abertura e uma razão focal de F4.5 contra F7 do Orion Premium me atrairam. Com uma abertura quase duas vezes maior e uma velocidade de captura também duas vezes mais rápida que o refrator, o VX8 me prometia um novo mundo de possibilidades em astrofotografia, até mesmo o registro de boas imagens planetárias, algo que o Orion Premium não atendia de forma satisfatória.
O VX8, fotografando planetas na varanda do apartamento.
O que mais me atraiu especificamente no modelo da Orion UK foi o seu peso. A especificação do tubo informava que ele pesava 7 quilos, o que o tornaria bastante adequado para a montagem HEQ5 que uso, mais fraca do que uma EQ6. Além disso, devido a razão focal baixa eu poderia  captar em 5 minutos algo que o refletor levaria 10 minutos. Dobraria a minha produtividade.

É importante dizer que Orion UK e Orion não são a mesma coisa, a primeira é uma empresa inglesa que fabrica seus próprios produtos, enquanto a segunda é uma empresa Americana cujos produtos são quase todos fabricados na China. Antes da compra, eu considerei o fato dos telescópios serem fabricados na Inglaterra como algo bastante positivo, mas depois descobri que a Orion UK é uma empresa pequena e que, apesar de muito bem intencionada, não tem uma fama muito boa no mercado de equipamentos astronômicos.

Quando o refletor VX8 chegou, uma semana após o pedido, eu me deparei com vários problemas. Os anéis de fixação eram de um padrão diferente dos utilizados nas marcas mais populares, e simplesmente não havia dovetail compatível a venda no Brasil. O pessoal do site brasileiro onde ele foi adquirido comprou o telescópio mas não tinha o Dovetail adequado pra ele, que só poderia ser adquirido no exterior. A aquisição de aneis da Sky-watcher e cerca de um metro de fita EVA resolveu o problema, mas a um custo de cerca de 200 reais e uma semana de espera.

Mas o pior foi o focalizador. Sim, de novo ele! Mas ao contrário do Orion Premium bastava olhar para a focalizador do VX8 para ver que ele é péssima qualidade, com um parafuso de pressão que caia dentro do telescópio ao ser apertado, esta peça foi com certeza a maior decepção do VX8. Eu consegui remediar trocando um dos parafusos de pressão do focalizador por um que achei em casa, mas o parafuso que regula a pressão, do outro lado do focalizador, é uma peça de muito ruim, de plástico vagabundo, algo inacreditável para um OTA de 900 euros, e até hoje eu tenho problemas com o produto (Pra variar, ao invés de trocar, eu fico lidando com produto vagabundo!).

Depois fiquei sabendo que o VX8 que comprei era de uma linha que estava sendo trocada por uma segunda geração, que vinha com um focalizador novo, aparentemente melhor. E era esta segunda geração que estava novecentos euros na Europa e não o modelo que comprei no Brasil. Para completar minha insatisfação, descobri que a Orion UK tinha a estranha política de vender seus telescópios com upgrades em sua óptica. E certamente o meu não tinha este upgrade. A Orion UK consegue ser uma empresa bizarra, na minha humilde opinião.

A boa notícia foi que, se a especificação no site da Orion UK apontava que o VX8 pesava 7 quilos, ao colocar na balança ela marcou 6,2 quilos, o que achei muito bom. Este peso me permite guiar com o telescópio com a mesma qualidade que guio com o refrator, já que ao adicionar o peso da levíssima Atik 314L com uma roda de filtros pequena e da guiagem com uma buscadora de 50mm, o peso total do setup astrofotográfico fico em somente 7,6 quilos.

A tal da colimação era uma preocupação constante antes da aquisição do refletor, mas a aquisição de uma ocular Sheshire, produto barato e funcional, tornou a tarefa muito mais simples, embora eu ainda não tenha dominado totalmente o assunto. Só me incomodou o fato de que oVX8 descolima muito fácil. Ele até tem alguns parafusos de trava, mas eles não funcionam bem, deixando o telescópio descolimar mesmo quanto devidamente apertados e até mesmo descolimando o telescópio quando eu aperto eles. Basicamente eu tenho que colimar o telescópio a cada sessão. Um colega, entendido do assunto me disse que isso deve ocorrer devido a flexão do tubo, que não teria uma estrutura suficientemente firme para manter tudo alinhado durante a movimentação do telescópio na montagem. É o peso que paguei pelo telescópio ser leve. A sua maior qualidade também gera um de seus maiores defeitos.

Nas primeiras tentativas com o VX8 eu fiz a besteira de colocar os pés da montagem estendidos, para que o telescópio ficasse mais alto e eu tivesse uma melhor visão do céu, já que minha varanda é cheia de obstaculos que bloqueiam cerca de 60% do céu. Mas logo percebi que o telescópio nunca iria acompanhar corretamente com os pés abertos daquele jeito e percebi que a única forma de usar o refletor seria com os pés do tripé totalmente recolhidos, deixando o telescópio o mais baixo possível. Isso me fez perder um pouco de céu, mas se mostrou a única forma de utilizar o telescópio com tripé.
Algo que gostei muito ao trocar o refrator pelo refletor foi a saída do porta ocular, que pode (e deve) ficar apontada para cima. Isso me deu muito mais segurança ao conectar câmera e roda de filtros a saída da ocular, pois me tira a preocupação de que o equipamento fotográfico solte do focalizador e caia durante a sessão fotográfica. Refratores, quando apontados para cima, deixam o porta ocular apontado para baixo.

Mas maior dificuldade o refletor foi o foco. A razão focal de 4,5 do VX8 torna o foco um desafio, muito maior do que no refrator que é muito mais fechado. Além disso, é comum a câmera simplesmente perder o foco durante a captação, mesmo que o focalizador não se movimente. Mas este problema parece ser comum a todos os refletores, mais sensíveis a mudanças de temperatura que refratores.

A troca do refrator pelo refletor não aconteceu da noite para o dia e na verdade ainda não está consolidada. Eu até tenho gostado de muitas imagens feitas com o VX8. A distância focal não é muito diferente, 900mm contra 710mm do Orion Premium, mas o nível de detalhes que as imagens revelam são superiores, só que as dificuldades que o refletor impoem, se aumentam o desafio, algumas vezes ultrapassam o nível da diversão para se tornarem puramente Stress. É quem me conhece sabe que eu valorizo mais a experiência da astrofotografia do que o resultado em si. E mesmo nos resultados o VX8 perde em alguns pontos. Talvez devido ao peso, ao focalizador ruim, ou ao coma, as estrelas ficam melhor no refrator do que no refletor. No fim estou considerando o refletor ideal para objetos menores, que exigem uma maior resolução, mas o refrator ainda é bom para objetos mais extensos, quando eu quero aproveitar toda a área de captura. Talvez quando eu adquirir um corretor de coma, algo que já devia ter feito, o VX8 torne-se o telescópio predominante nas capturas.

Quanto ao Orion UK VX8, especificamente, é um telescópio problemático. Uma vez um astrônomo veio reclamar comigo por que queria se tornar representante da marca no Brasil, mas como eu estava falando mal da marca (e parece que algumas pessoas consideram este blog importante em termos de equipamentos, o que me deixa feliz) ele estava desistindo disso. Bem, o pessoal do site onde eu adquiri o telescópio já desistiu da Orion UK faz um bom tempo. Acredito que eles sabem bem dos problemas da marca agora.

Quanto a mim, gastei 3000 mil reais com o tubo óptico do VX8, mais 250 com os anéis de fixação e não acredito que vou encontrar outro tubo tão leve quanto ele. Se me entender melhor com o focalizador (ou trocar por um melhor) talvez eu e este telescópio tenhamos longos anos juntos de astrofotografia. Mas o refrator ED, por ser imagens como a Abaixo, não deve ficar totalmente de lado.


Nebulosa da Águia, capturada com o refrator ED de 102mm. O ED ainda irá me proporcionara alegrias.


Imagen cropada dos pilares da criação feita com o refletor, o 200mm parece uma opção melhor para destacar detalhes ou objetos de menor tamanho aparente.